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O QUE GANHAMOS COM ANITTA?

O QUE GANHAMOS COM ANITTA?

           

                                                                                                

Numa passagem do filme As confissões (2015), protagonizado pelo excelente ator francês Daniel Auteuil, um certo banqueiro convida sua colega a ouvir o canto do Uirapuru, ave da Amazônia, que, quando entoado, segundo a lenda, faz com que todos os animais da floresta entrem em audição silenciosa. 

A referência à ave, que bem pode ser tida como a metáfora do filme, induz o espectador brasileiro bem informado à lembrança do compositor carioca Heitor Villa Lobos, que se entranhou na selva para ouvir o mitológico canto à procura de inspiração para compor Uirapuru, uma de suas obras-primas, com sua peculiar linguagem orquestral.

Villa Lobos não foi o único a atrair respeito dos críticos estadunidenses para nossa identidade musical. Assim que a Bossa Nova chegou aos EUA, uma verdadeira euforia se instalou com essa batida brasileira. Frank Sinatra, Elvis Presley e outros expressivos nomes suaram para conseguir acompanhá-la, ao contrário dos grandes vultos negros do Jazz, como Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, que a captaram mais facilmente.

O baiano João Gilberto e o carioca Tom Jobim tornaram-se estrelas de primeira grandeza na terra de Tio Sam, ganharam muito destaque e efusivos aplausos no célebre Carnegie Hall.  A beleza musical se mostrava tão sedutora que Norman Gimbel, o versionista norte-americano de Garota de Ipanema, passou a perna em Tom, apropriando-se contratualmente dos direitos da emblemática canção. 

De lá para cá, passada a fase altamente criativa de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, entre outros, o Brasil da mídia massiva (contra a qual se opõe a força da cauda longa na internet) caiu no mar da garapa musical, estimulado pelo vício da macaqueação, imitando servilmente sonoridade estrangeira e com tal ênfase que um Zezé Di Camargo da vida chegou a dizer que ele, e não Caetano, é que é MPB e que João Gilberto nada teve de extraordinário, pois só cantava baixinho e tocava bem... Só se pode entender que esse tipo de delírio, no seu limite, seja produzido para funcionar como consolo para descrenças com a chegada do Oscar, que nunca veio, com a vinda do Nobel, que já premiou Chile, Argentina, México e Peru, ou mesmo com o vexame do 7x1 para a Alemanha.  

Eis que, então, no oceano das nossas atuais amarguras culturais, políticas e econômicas, surge Anitta com a pretensão de nos redimir. Com tanto dinheiro derramado entre formadores de opinião de jornais, revistas, TV e blogs, se é levado  a princípio a pensar que, de fato, há algo novo no "Vai Malandra"; tipo assim, algo que chegue próximo a “Despacito”, um delicioso ritmo latino que entrou com sucesso no Brasil, onde, via de regra, a música dos demais países sul-americanos nunca mereceu senão indiferença.

Mas, quando se assiste ao vídeo da funkeira carioca seminua e untada de óleo para destacar o apelo sensual, conclui-se que a carnalidade erótica neste País tornou-se mesmo uma tatuagem indestrutível do nosso próprio imaginário, capaz de afetar negativamente tudo o mais. Sem falar que a letra não é lá grande coisa, os signos semióticos, inclusive de celulite e arquitetura da favela, são clichês mal usinados de  sociologia musical e cultura identitária...

Essa  apresentação de Anitta para o povo americano, que é conservador no seu discurso social, traz como único resultado novo a dilatação geográfica do esteréotipo do comércio sexual brasileiro, para agora incluir as favelas.

Não  é sem nexo lembrar o caso em que a ex-modelo Luma de Oliveira teve sua foto de desfile no carnaval do Rio indevidamente publicada, em julho de 2005, pelo jornal inglês The Independent a fim de ilustrar uma reportagem sobre os escândalos de políticos, funcionários da Volkswagen e prostitutas brasileiras.  Não foi por mera teimosia que os donos do periódico se recusaram a fazer acordo: foi na verdade porque estavam convencidos de que por aqui sempre nos orgulhamos do paraíso sexual como produto de “exportação” nacional.

É verdade que, na música, como na arte em geral, criar rigorosos isolamentos nacionais é querer reinventar a roda. Raul Seixas é um bom exemplo de que se pode adotar com sucesso estilos nascidos lá fora, nos quais ele inseriu pitadas nacionais de folclore, candomblé, ocultismo, metafísica e até filosofia.  Isso explica por que o cultuado Bruce Springsteen,  atraído pela beleza musical e literária da canção, com a ajudinha de Álvaro Pereira Junior na escolha, fez questão de se virar em português em Sociedade Alternativa.

Querer, entretanto, ser internacionalmente original fazendo remake de chavões que mais nos deslustram do que orgulham, como pretende Anitta, é o fim da picada. A influente vaidade carioca bem que poderia tentar alavancar coisa melhor. 

Pior que isso só a ridícula simulação de sotaque estrangeiro feita pela paulista Kell Smith (que nome...), que até hoje só saiu do Brasil para ir ao Paraguai, na tolerável Era uma vez, em que, entre outras esquisitices fonéticas, pronuncia “algodão”, “vilão”, “arranhão” etc quase como se não houvesse til.

Atualmente, a catarse do brasileiro, que está em profunda crise emocional, é ficar extasiado com a qualidade de vida dos EUA e de países da Europa. Muita gente que viaja faz circular no Whatsapp um videozinho sobre preço de gasolina, trânsito, bons modos, etc. 

A sacada genial de Raul aparece então como bom remédio terapêutico: “a solução é alugar o Brasil”. No mundo ideal, isso seria melhor do que ver Anitta nos traduzir como uma cigana ensebada, com seu reluzente dente de ouro, a trapacear sobre o futuro com clichês de amor, inveja alheia e dinheiro... 

Brumado, Bahia, 14 de janeiro de 2018. 


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