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HÁ UMA VASTA EXTENSÃO DE LUGARES FRIOS

HÁ UMA VASTA EXTENSÃO DE LUGARES FRIOS

O AMOR QUE TENDE A DAR CERTO É AQUELE LIVRE DE QUALQUER ROMANTISMO

                               Braulino Pereira de Santana, professor do DEDC-UNEB

 

Há uma vasta extensão de lugares frios, solitários, rudemente captados por poucas palavras, quase um silêncio que oprime. Mas ela não esta lá fora: ela reside no coração de Johnny Saxby (Josh O’Connor), um sujeito triste, incapaz de entender o que sente e o que o faz tão lacônico, sem palavras para refletir sobre si mesmo, protagonista do magnífico “God’s own country” (Inglaterra, 2017), estreia na direção de Frances Lee, que também escreve o roteiro. 

Difícil acreditar que esse drama não tenha muito da vida de Lee – que cresceu em uma fazenda  de criação de porcos no interior da Inglaterra tendo as montanhas como playground – como ele mesmo disse em entrevista recente, tal a capacidade de nos envolver de uma forma terna e empática. Uma história parece tornar-se mais verdadeira quando ela brota de uma vida também verdadeira. 

Um filme de cinema é uma peça de arte diante da qual estão suspensas todas as formas de solidão, uma vez que, bisbilhotando vidas entregues a seus fracassos e sem controle sobre suas próprias existências, por um momento temos a ilusão de controlar, na posição de espectadores, as nossas próprias vidas ao decidir ir ao cinema. 

A magnitude desse drama vai pouco a pouco sendo construída com uma engenharia que nos confirma o quanto um filme bem feito tem o poder de plantar em nossos corações a possibilidade de amar os semelhantes quando os flagramos sendo, simplesmente, tão humanos como todos nós. 

Numa área rural da Inglaterra, Johnny Saxby cuida sozinho de uma fazenda, sendo por vezes assistido pelo pai-avô (Ian Hurt) parcialmente incapacitado por um derrame e uma avó (Gemma Jones, numa performance contida e amarga) tanto dedicada quanto preocupada com a tristeza, as bebedeiras e a solidão do neto, que tem como única diversão sexo fortuito, que se assemelha mais a uma luta, com rapazes no único bar dos arredores. As coisas vão mudar por ali com a vinda de Gheorghe Ionescu (Alec Secareanu), contratado por uma semana para ajudar nos trabalhos com a cria de ovelhas, consertos de cercas, limpeza de currais. A chegada do estranho traz consigo uma espécie de revolução para o ambiente, a maior revolução de que um ser humano será capaz de admitir em sua existência – deixar-se amar por alguém. 

A engenharia do filme transparece em escolhas da direção, e a mais inteligente delas reside no uso de sons diegéticos (ausência de acordes sonoros comentando as cenas, como de costume em comédias românticas americanas, por isso mesmo descartáveis) – os sons que ouvimos têm origem nos movimentos das personagens, no vento que sopra, no balido de uma ovelha, na água que escorre de um lugar para outro. Isso torna o drama das personagens muito mais próximo de nós, como se aquelas pessoas fôssemos nós mesmos em determinados momentos de nossas vidas, e chorar um pouco em um momento ou outro desse filme assemelha-se a chorar em nossas “vidas reais”, pois sabemos que somos nós ali na pele de outros. 

Recebido com epítetos como ‘’estonteante’, ‘cativante’ e ‘uma das mais seguras estreias na direção em anos recentes’, ‘God’s own country’ traz para as nossas vidas o que nenhum movimento de gênero será capaz de nos dar: a possibilidade de poder entender que amar alguém ainda será a nossa grande conquista, a nossa revolução mais necessária, uma vez que amar alguém é muito mais difícil de que abandonar alguém (Fernando Pessoa). 

A coragem desse filme em nos colocar diante de nós mesmos; a possibilidade de nos lembrar que é no silêncio que temos a chance de nos vermos por inteiro (num mundo de excesso de movimento, pessoas e sons, que nos tira a possibilidade de sermos solitários); a felicidade em  trazer para os dias de hoje um lema abandonado como perigoso: ‘amar pode mudar alguma coisa’; o sentimento de que não precisamos de nada, uma vez que um abraço pode fazer por nós muito mais do que precisamos para viver - por tudo isso vale a pena embarcar na (des )aventura de Johnny nos premissas estabelecidas por Lee. 

Desprovido de melodrama, o maior trunfo desse filme se concentra em nos fazer entender que o amor que tende a dar certo é aquele livre de qualquer romantismo, uma vez baseado numa lenta construção dentro de nós mesmos.  


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