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PRIVATIZANDO NARRATIVAS SOBRE O RACISMO

PRIVATIZANDO NARRATIVAS SOBRE O RACISMO

Braulino Pereira de Santana,  Professor Doutor da UNEB-DEDC

 

Existe uma espécie de privatização da luta contra o racismo já há um certo tempo em curso no Brasil.

Garotas negras bonitas e pretos repórteres que trabalham para a Rede Globo têm  ‘denunciado’ as já famosas (por eles denominadas) injúrias raciais sofridas por falas – para eles também, ataques – de gente anônima e mal educada nas redes sociais. Graves acontecimentos e substanciosas faltas contra as populações negras no país são substituídos por queixumes, ora porque uma preta, geralmente bem maquiada, foi alcunhada como ‘macaca’, ora porque um preto bonito, e tudo leva a crer, roludo, foi chamado de ‘negro de alma branca’.

Enquanto essas celebridades televisivas querem capitalizar ao tencionar transformar seus diminutos dramas em tragédias raciais, para jovens negros das periferias já de há muito tempo não existe drama para eles:  o que se instaura no cotidiano desses jovens são reiteradas tragédias que se retroalimentam pelas estruturas de exclusão que parecem não ter fim – estruturas solidificadas por poderes midiáticos que essas celebridades sustentam com suas imagens.

Dados de cortar o coração do mundo civilizado estão à disposição para quem quiser ver. O drama de homens pretos jovens, como também de mulheres negras, e a violência que se derrama sobre essas populações não mobilizam militância dessas celebridades para implementação de políticas que ataquem essas questões. Qualquer visualizada nos dados do SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade), do Ministério da Saúde, e se verá o quanto, diante de tantas coisas estarrecedoras, essas queixas não passam de ‘mimimi’ de gente que quer garantir seu espaço  pelo viés do coitadismo.  

Nos anos setenta e nos anos oitenta, reclamava-se muito de certos artistas da Tropicália e suas estratégias bem calculadas de chamar atenção para as suas criações com a deliberada intenção de vender discos.  Entravam em cena a sintaxe nebulosa de Gilberto Gil e a verborragia ambígua e egocentrada de Caetano Veloso – eles criavam uma polêmica qualquer chamando a atenção para si, e o circo estava armado: discos geralmente abaixo do esperado e canções medianas vendiam mais do que, em condições normais, poderiam alcançar. Alcançar inclusive a atenção da crítica especializada.

Essas moças e esses rapazes da Rede Globo usam de estratégias vagabundas parecidas – suas lamúrias arranjam um jeito de manter os seus empregos por lá. Querem encontrar um vilão contra quem pelejar, e assim arregimentar um público negro aliado para a emissora à qual servem, tudo muito bem planejado como se tivesse saído da cabeça de marqueteiro de empresa de publicidade vendedora de sabonete em que peles brancas e cabelos lisos dão o tom.  

Além de usurpar a batalha contra o racismo, roubando para si aquilo que deveria ser algo que tivesse alcance de política pública, trata-se de uma desonra contra a história das populações negras sequestradas na África e empurradas como escravas para as Américas em navios-senzalas, já que o dano à verdadeira luta para enfrentar o racismo levará décadas para ser reparado, uma vez que confunde mentalidades ao alçar a Rede Globo a defensora de luta contra o racismo – uma emissora marcadamente alinhada a uma brutal faxina étnica no Brasil por décadas (no documentário  “A negação do Brasil”, dirigido pelo preto formatado Joelzito, isso se explicita de forma bem didática).

Quando a mestiça Marilene Felinto ainda estava em ação, ela conta em reportagem feita com pobres brancos rurais de regiões do interior do Rio Grande do Sul que um deles solicitou que ela segurasse um bebê deles no colo, e que “ficasse tranquila pois o nenê não iria ficar com medo dela, não, já que ele não tem medo do preto, mesmo do negro pretão”. Vulnerável e constrangida, ao segurar o bebê, ela se sentia por dentro muito mais confortável se ela tivesse em meio a um bando de macacos, a compartilhar o ambiente com aquelas pessoas sujas e fedidas.

Uma expressão arcaica dos anos sessenta era comum entre fãs de celebridades em programas de televisão: a famosa ‘macaca de auditório’, a fã que não perdia o show do seu cantor predileto, seja Bartô Galeno, seja Fernando Mendes, seja Wanderley Cardoso ou  José Augusto. Hoje em dia, o que nos resta é lamentar que o pobre do macaco tenha se tornado um animal tão estigmatizado, pois, em meio a um bando deles nos sentiríamos muito mais civilizados do que ligar a TV no Programa de Fátima Bernardes onde Tia Má nos brinda com sua luta racial de boutique.      


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