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LULA, A UNEB E O FÓRUM MUNDIAL

LULA, A UNEB E O FÓRUM MUNDIAL

 

                                       João Batista de Castro Júnior. Professor Doutor do Curso de Direito da Universidade do Estado da Bahia, campus Brumado.

A notícia de cifra de mais de um milhão e duzentos mil reais, que, segundo alguns, já estaria perto dos dois milhões, sendo mobilizada pela UNEB para trazer, ao Fórum Social Mundial, Lula, Cristina Kirchner, Pepe Mujica, além de outro prováveis líderes políticos da América do Sul, podia até passar despercebida se não fosse pelos tempos bicudos que rondam a vida das pessoas e instituições deste País.

Essas aperturas de caixa não estão alheias à Universidade do Estado da Bahia, a qual, a propósito, jamais poderia estar envolvida nesse tipo de dispêndio, a não ser que esteja fazendo o triste papel de interposta pessoa para atender a certos interesses políticos, pois, afinal, ela convive hoje com penúrias de dar dó em Jó, penúrias que a fizeram, entre outras disfuncionalidades, ficar engessada, em verdadeiro estado de catalepsia na sua função de alavancar pesquisa e extensão.

Tenho sido um crítico incisivo da miopia jurídica do ministério público e do judiciário na tentativa de tirar Lula da disputa democrática das urnas, como recorrentemente tenho dito, na qualidade de professor de Direito, quanto à fragilidade das provas, à questionável hermenêutica empreendida sobre os textos legais e sobre os fatos investigados e ao ineditismo sem qualquer parâmetro mundial em termos de responsabilização penal.

Mas criptas escuras dos arranjos patrimonialistas no interior de boa parte da universidade pública brasileira não ficam a dever a conhecidos desvios do sistema de justiça (judiciário e ministério público).

O que se vê de sobra no terreno da educação pública superior são alguns falsamente lindos discursos contra a desigualdade que seus próprios autores ajudam a aprofundar, ao deixarem de contribuir para a boa formação intelectual de seus alunos, seja pela violação à eficiência administrativa, que é um princípio constitucional, seja pelas tenebrosas urdiduras no terreno da gestão dos recursos públicos. 

A verdade é que esse quadro de ausências criminosas de sala de aula, de escandalosos favorecimentos em editais, de manipulação vitimista da questão identitária de gênero e de raça como blindagem contra as críticas, da má administração de dinheiro público, ajudou a substancializar um preocupante subproduto da sociologia política contemporânea do Brasil: o crescimento da aura popular da figura bizarra de certo deputado federal que arregimenta multidões, mas não passa de um fascistoide intelectualmente inapto e sem qualquer capacidade de gerência administrativa, pois passou a vida inteira defendendo apenas o direito da polícia em ressuscitar o faroeste hollywoodiano nas ruas brasileiras.

Não estou fugindo do assunto. É isso que esse gasto com a vinda de Lula et caterva irá trazer: hipertrofia da crítica fascista que domina as redes sociais. E quiçá com razão nesse caso.

Afinal, por que a UNEB se presta a desempenhar esse papel? Logo ela, que tem grandes pendências estruturais nas suas mais de duas dúzias de campi? Veja-se o caso de Brumado: até hoje a inépcia da administração central, aí incluída a fantasmagórica Procuradoria Jurídica, não foi capaz de dar desate definitivo à doação incondicional de um terreno de 50 mil metros quadrados, a qual corre o risco de caducar em janeiro de 2019.

Então, esse dinheiro milionário para fins voláteis, em comparação com aqueles próprios da educação, já serviria e muito para bancar as fundações deste campus.

Mas o Reitor não quer saber disso: age como muitos integrantes da pandilha de Lula que o colocaram em maus lençóis e agora o delatam só pela esperança de não ficarem muito tempo atrás das grades, pois têm muito dinheiro ilicitamente apropriado para gastar quando saírem.

Se me fosse permitido dar um pitaco em termos de planejamento político, eu diria ainda: esse gasto não será bom para Lula, e a cegueira fundamentalista do lulismo institucionalizado é tanta que não parece percebê-lo.

Isso tem um nome que a vesguice de certos falsos intelectuais socialistas ainda não percebeu ou nem sabe o que é: gentrificação de legítimos valores sociais, fenômeno sobre o qual posso falar em outra oportunidade.

Em suma: a execução de um belo mote discursivo às custas de malandragem com dinheiro público, num tempo em que austeridade constitui inadiável palavra-chave no trato com o erário, é uma armadilha perigosa e contraproducente, que não quadra com o exemplo que se espera do espaço basilar da fermentação educacional. Seria bom não deixar só como ornamento literário o mote de contos clássicos, como "A nova roupa do rei", de Hans Christian Andersen. É ele que nos faz associar que, na UNEB,  o monarca está nu. Aliás, tem estado  (aspecto durativo do verbo).

Brumado, Bahia, 9 de março de 2018.

 

 

 

 


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