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APÓS DENUNCIAR RACISMO NA UNEB, O QUE ACONTECERÁ COM CARLA CLEIDE?

APÓS DENUNCIAR RACISMO NA UNEB,  O QUE ACONTECERÁ COM CARLA CLEIDE?
Gildeci Leite. Professor Doutor, UNEB, Seabra

                                                               

Antes preciso apresentar, rapidamente, a mulher negra Carla Cleide Lopes Barbosa Lino e bem antes, que alguém diga, que estou falando por ela e que escrevo sem autorização dela, faço algumas afirmações. Carla Cleide fala por si mesma. Quanto a este texto, foi aprovado por ela. Texto, que deveria ter sido escrito há tempos. Evitei fazê-lo por força do conturbado, duvidoso, por conseguinte judicializado processo eleitoral da UNEB em Seabra.

Carla Cleide Lopes Barbosa Lino foi durante cerca de 08 (oito) anos empregada doméstica da casa dos professores da UNEB (Universidade do Estado da Bahia) em Seabra. Costumeiramente, nós, professores da UNEB contratamos, de maneira informal, empregadas domésticas, que nos auxiliam em residências docentes oficiais. Elas, servidoras invisíveis, não possuem registro trabalhista e não possuem vínculo oficial com a universidade. As garantias das citadas trabalhadoras ficam à mercê das disponibilidades financeiras dos também castigados professores e das também castigadas professoras. Confesso, que desconheço prováveis posicionamentos oficiais da UNEB em relação a estas trabalhadoras invisíveis. Carece de regulamentação?

A invisibilidade de Carla Cleide continuaria, se ela, próximo aos 40 anos de idade, não se movesse para fazer o vestibular para o curso Letras da UNEB em Seabra e lograsse aprovação em 2014. Parecia que os tempos iriam melhorar e o fim da obrigatoriedade da limpeza de vasos sanitários, após cada uso deste, acabaria. Pois é, Carla Cleide queixa-se de ser obrigada, por uma professora, a limpar, novamente, o vaso sanitário a cada vez que algum dos habitantes da casa dos professores usasse o vaso. Quem tem em sua casa uma empregada doméstica disponível para a limpeza do banheiro a cada vez, que um morador ou visitante realize as suas necessidades fisiológicas?

Aprovada no vestibular, logrou êxito na seleção de estagiários do campus. A felicidade estaria garantida, pois não mais precisaria ser humilhada. Nossa estudante, nunca sentiu vergonha do fato de ter sido empregada doméstica, sempre entendeu a dignidade da profissão. Antes dela, a empregada doméstica da casa dos professores e professoras da UNEB em Seabra fora sua mãe. Carla Cleide é responsável por mostrar aos seus familiares, que lugar de negra e de negro não é somente na cozinha ou na faxina.

Os contratos de estágio podem ser renovados em até 02 (dois) anos com avaliações periódicas. Inexplicavelmente, após ter sido bem avaliada fora chamada pela diretora para o rompimento de seu contrato. Começaria então a tormenta para a mulher negra com dois filhos menores e marido desempregado. Os argumentos para a não renovação eram de que precisavam oportunizar aos demais, acompanhados de uma promessa de renovação, caso a ex-empregada doméstica fizesse um pedido pessoal. Três mulheres: uma mulher negra submetida às humilhações de prováveis regras de mercado e suas superiores, duas mulheres brancas, estabilizadas economicamente.

Não adiantaram as intervenções de colegas estudantes, do Diretório Acadêmico em favor de Carla Cleide. Os tempos seriam mais difíceis, pois não teria o dinheiro do estágio, nem o subemprego na casa dos professores. Apesar de clamar por apoio de militantes do campus, Carla Cleide não foi devidamente ouvida pela maioria. Conforme, sua denúncia, argumentaram aos colegas, os quais intercederam em seu favor, que “ela sabia cozinhar muito bem.”. Não falamos aqui de uma cozinha sagrada negra e nem dos sentidos positivos da cozinha. Segundo as testemunhas, relegaram à mulher negra a subserviência da cozinha. Teria sido racismo?

Como o tempo não para, no segundo semestre de 2017 Carla Cleide fora retirada de uma turma sem solicitação ou autorização e quando seu nome fora reenviado para a caderneta da turma, a reprovação por falta já estava garantida. Será por coincidência que as atrapalhações, que levaram Carla Cleide à reprovação por falta, tenham as mesmas pessoas envolvidas no ocorrido de 2015? Com a ida do reitor da UNEB, professor José Bites, ao campus, no final do ano de 2017, os problemas com a reprovação injusta, já oficializados em processos, foram publicamente explicitados ao gestor máximo da UNEB. Até o momento, nem sequer à cópia do processo Carla Cleide teve acesso, apesar da solicitação oficial.

Após idas e vindas, anuncia-se, que a Comissão de Sindicância, formada pela universidade para apurar os fatos, começará as oitivas no próximo dia 21 de maio. Atenta e preocupada com as possibilidades de que sejam distribuídas pizzas, pouco republicanas, a vítima conseguiu provar relações de proximidade entre as denunciadas e as pessoas que compõem a comissão de sindicância. Tanto a comissão de sindicância, quanto as denunciadas, compuseram a linha de frente da chapa do atual reitor para a reeleição, todas com destacados papéis no processo eleitoral de 2017.

Concordo, que não podemos fazer prejulgamentos, mesmo daqueles que nos julgam, mas considero pertinente mais essa preocupação de Carla Cleide. Na UNEB, caminhamos por tempos mais duros, que os vividos externamente. Apesar de fazerem todos os jogos, possíveis, das identidades para que as representações sejam vistas em postos de comando, nem sempre o comando é plural. As vezes esforços para o tão conhecido jogo de identidades podem constituir novos estereótipos, visto que as negociações impostas pelo poder são quase sempre desfavoráveis à dignidade humana.

“Quanto vale ou é por quilo?”, inspirado em “Pai contra mãe” de Machado de Assis, escrito por Sérgio Bianchi, revela-nos muitas verdades. O caçador de escravos, Cândido das Neves, captura a escrava Arminda. A morte do filho de Arminda garante a vida em família do filho de Cândido das Neves. O nome Cândido significa “muito branco”. Neves são flocos brancos de gelo. O nome Arminda significa aquela que possui armas, mas que armas possuiria Arminda naquela condição, laçada pelo caçador de escravos, arrastada brutalmente, entregue a seu dono com as entranhas sangrando o filho perdido? Carla Cleide não pode ter o mesmo fim, simbólico, de Arminda ou de Marielle Franco, embora saibamos da existência de Cândidos das Neves em nossas instituições. Confio em um julgamento justo, feito pela UNEB, e o justo acompanhamento do Ministério Público do Estado da Bahia, órgão para o qual Carla Cleide enviou denúncia.

Fico preocupado, não somente com o que poderá acontecer com Carla Cleide, mas com a imagem de nossa UNEB, já comprometida com tantos conflitos internos e tantas cândidas hipocrisias, justificadas em nome de uma unidade inexistente, que mata os justos e alia-se a antigos algozes por uma governabilidade fratricida. Fico preocupado pelo corte da liberdade de expressão, tentando tornar ridículo e malquisto quem questiona o poder interno, que nos oprime. Fico preocupado, pois se nem internamente conseguimos uma unidade na luta, que difere da unidade de pensamento, como garantiremos uma unidade para uma universidade melhor diante dos organismos extramuros? A lógica do poder pelo poder tomou conta da UNEB e pessoas como Carla Cleide correm o risco de, mesmo vítimas, tornarem-se um incômodo às pretensões pessoais de alguns de nossos pares. Que tudo seja justo e que a busca inalcançável da perfeição seja ao som de Gonzagão em uma acácia amarela com o mal submerso.

 

Seabra-Chapada Diamantina, 15 de maio de 2018.


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