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O HORRENDO BUFÃO

O HORRENDO BUFÃO

     Pedro R Ivo das Neves. Psicanalista. Professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).

 

“No quartel, quando um soldado tinha algum problema nessa área, eu tinha um cassetete de um metro e meio de altura escrito ‘psicólogo’. (…) Não acredito em psicólogo”. Está é a fala do candidato do PSL ao cargo máximo desse país.

Como situar alguém que pensa dessa maneira sobre nosso campo de trabalho, os que estudaram exaustivamente e lidam com o psiquismo, através de suas graduações e formações posteriores?
Se for um homem comum e no lugar de ‘soldado’ estiver ‘meu filho’, pesamos em atendimento clínico a ele, imaginamos o sofrimento daquele que tem dele alguma assistência, ainda que fiquemos em dúvida se ele irá procurar e aceitar ajuda. Se esse homem pretende o cargo executivo máximo de uma nação, nos ocorre que o seu pensamento doentio pode atingir e orientar a conduta de inúmeros cidadãos de diferentes origens, funções, idades e recair sobre eles e todos.
É estarrecedor, diante dos avanços para lidar com o sofrimento e a conduta humana que as ciências desse campo alcançaram, particularmente a psicologia e a psicanálise, ver um homem de vida pública fazer tal afirmativa. Mas não é na vertente epistemológica que isso causa espécie e um certo horror. É mais na vertente pragmática da vida, naquilo que nela tem consequências sobre as pessoas, as políticas públicas, e não só no campo da saúde mental, mas em tudo que diz respeito as mentalidades.
Põe em suspensão, em nós, toda racionalidade ao encontrar esse pensamento num que pretende à Presidência da República do Brasil, país continental, diverso, rico em natureza, produtos primários e secundários, em cultura diversa de poesia a artesanato, de mecatrônica a psicanálise aplicada ao social, de engenharia aerodinâmica a modos de vida em região de floresta densa ou área pântanos, sem falar em nomes como Paulo Freire e Josué de Castro.
Não vê ele que o mental, a transposição dos percalços que demovem a vontade dos sujeitos, o reanimar-se que transpõe as consequências dos insucessos, o desejo que fura as adversidades individuais e sai da miséria para o doutorado? Não, ele não vê. Teria sido ‘acarinhado’ por pauladas? E disso não tratou e sua mágoa lança sobre os outros, sem escuta, sem palavras, rebaixando?
Se ele não vê nada disso como irá pensar ações públicas de políticas que representem as demandas ainda insolvíveis dos brasileiros? Saberá, por acaso, valorizar a nossa inteligência, nosso espírito criativo, nosso modo alegre e inventivo de achar soluções para o impossível, nossa capacidade de atravessar sofrimento com a palavra, com a curiosidade pelo entendimento, com a investigação, com a auto estima elevada? Sua lógica será abater alguns ou muitos, submeter, humilhar como fez com o soldado ao qual apresentou o cassetete.
Triste os que precisam para si ou para seus filhos e os filhos dos outros, de um pai irracional e bufão! Devem estar muito ocupados com o medo ou com outros valores para abrir mão dessa parte da vida nas de um homem irascível e medroso com a palavra espontânea, de variadas modulações, um que foge da lógica para os tons, gestos, explosões emotivas, no seu caso, raivosos ou incitantes à raiva e ao ódio.
“Não me perturbem mais com conversas sobre políticos e políticas! Deixem um sargentão tomar conta disso aí e me deixe trabalhar e viver! Ele vai dar um jeito!” É o que me parece passar pela cabeça de muitos bem-intencionados.
Mas há também com ódio: “Vocês vão ver agora, essa de ficar fazendo isso e aquilo, curtindo assim ou assado! O pau vai comer! Nós vamos sentar a porra! Vão ver agora quem manda nessa merda!” Pensamento marcado pela força violenta, por uma paixão pela dor e humilhação do outro, uma posição sádica ou tendente a isso.
E o que você vê nessas posições? Um querer não saber, um deixar pra lá ativo, ou seja, curtindo sua posição, sabendo onde está, gozando dela. Encontramos nisso tudo, mais gozo do que pensamentos, explicações, palavras, afetos e gestos sabidos. Encontramos um panorama de excessos, de exceder e de permitir a exceção em troca do gozo próprio da minha escolha. Olhando de um certo ângulo é, antes de tudo, um individualismo como é próprio do só mais um no meio da multidão, da turba, dos que apenas vão.
Não tenho resposta, só posso e tento elucubrar, pois não sei gozar nessa posição na vida comigo e com o outro, por isso pergunto sobre seu lugar, a você que prefere isso um horrendo bufão: como é estar assim?

 


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