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A CONDENAÇÃO ANUNCIADA

A CONDENAÇÃO ANUNCIADA

Dante Lucchesi,  Linguista e Professor Titular da Universidade Federal Fluminense

 

Já era esperada a condenação do Presidente Lula, pela juíza que também lhe faz às vezes de carcereira. Mais uma vez, faltam provas e sobram convicções. Convicções despóticas, senhorias, oligárquicas, escravocratas. E sobram também incompetência e descaso, pois a sentença tem erros crassos, como tratar o mesmo indivíduo como duas pessoas diferentes.

Lula não é o dono do sítio que as empreiteiras reformaram. É verdade que ele se beneficiou disso. Não é moralmente louvável, mas daí a se configurar um robusto esquema de corrupção que justificasse sentença tão pesada vai uma grande distância.

FHC recebeu muito mais vantagens e benefícios das mesmas empreiteiras do que Lula, mas ele é um baluarte das oligarquias verde-amarelas e fiel defensor dos interesses maiores do grande capital. Por isso nunca foi sequer denunciado. O instituto FHC cuja verba inicial foi arrecada em um suntuoso jantar no Palácio do Planalto, que foi saudado pela mídia oligopolizada como grande evento da República nunca foi incomodado. Os seus financiadores: Odebrecht, OAS e todas as grandes empreiteiras que corrompiam o Estado brasileiro. O Instituto Lula recebeu verbas das mesmas empreiteiras e sofre uma perseguição implacável do judiciário que vê aí indícios claros de corrupção. Mas nada é investigado no Instituto FHC. Ao contrário, quando a defesa de Lula pediu que fossem analisadas as doações desse Instituto, o indefectível Moro negou o pedido, alegando que o Instituto FHC não estava sob suspeita. Of course!

Um aforisma popular descreve bem esse comportamento parcial e classista do judiciário brasileiro: aos amigos (os apaniguados das elites), tudo (no caso, a total impunidade); aos indiferentes (os pobres e deserdados deste chão), a lei; aos inimigos (aqueles que contrariam os interesses das oligarquias e do grande capital), o rigor da lei!

Há muito mais provas de corrupção contra Aécio Neves, Temer, José Serra, Aloísio Nunes et caterva do que contra Lula, mas todos esses são egrégios representantes das oligarquias e defensores dos interesses do grande capital e do imperialismo norte-americano. Portanto, estão livres, leves e soltos. Raquel Dodge, serviçal das oligarquias, tão célere em perseguir Lula, é igualmente ágil no arquivamento dos processos desses cardeais.

Ao tratar as sucessivas condenações de Lula como procedimentos normais do judiciário guiados por procedimentos técnicos, a mídia oligopolizada naturaliza um estado de exceção em que o judiciário atua como agente político e instrumento de perseguição e repressão aos movimentos e organizações populares. O discurso aparentemente neutro e objetivo da mídia burguesa é um poderoso instrumento ideológico para tornar “normal” a perseguição implacável, cruel e covarde que o judiciário promove contra o maior líder popular da história deste país. Alguns sabujos mais desprezíveis dos barões da mídia nem sequer disfarçam seu entusiasmo, mas o discurso mais perigoso, posto que é mais convincente e enganador, é dos que aparentam neutralidade.

A Lava Jato nunca foi uma operação de combate à corrupção, foi sim uma poderosa articulação montada com o apoio do Departamento de Estado Norte-Americano para desarticular o setor mais dinâmico da economia brasileira, o nosso programa nuclear e quebrar o monopólio da Petrobras sobre o Pré-Sal. Com o apoio incondicional da mídia, continua atuando para destruir o PT e seu maior líder, Lula.

Essa poderosa e simbiótica articulação entre o judiciário e a mídia criou as condições para o golpe parlamentar que depôs uma presidenta democraticamente eleita e proba. A não cassação dos direitos políticos de Dilma Rousseff escancarou a farsa do impeachment.

E o grande mastim das oligarquias, Sérgio Moro, protagonizou a aberração jurídica, na qual condenou e aprisionou Lula em uma solitária da PF em Curitiba, com o apoio incondicional de um tribunal de exceção, o TRF-4. E Lula é hoje o mais famoso preso político do mundo, forte candidato ao Prêmio Nobel da Paz.

Com isso, Moro pavimentou o caminho da teratológica figura de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. E no cúmulo da desfaçatez, aceitou como paga o superministério da “justiça”. O que deveria ser um monumental escândalo, desmascarando a parcialidade de Moro, foi mais uma vez naturalizado pela mídia golpista como uma nomeação “normal” e até “louvável”, do paladino da luta contra corrupção em um governo que se elegeu “para acabar com a corrupção no país”.

Assim, essa poderosa articulação entre mídia e judiciário foi igualmente responsável pela eleição do mais fascista e retrógrado governo da história do Brasil. Contaram na reta final da campanha eleitoral, com a ajuda das seitas pentecostais, que exploram a boa fé da população alienada em embrutecida, além de lavarem dinheiro do crime organizado, em uma igualmente simbiótica relação com as milícias que controlam os bairros pobres do Rio de Janeiro, bem como com a luxuosa colaboração da assessoria da campanha suja de Donald Trump, que produziu um verdadeiro Tsunami de fake news financiado pelo Caixa 2 ilegal de empresários inescrupulosos e fascistas, com a olímpica omissão do TSE. O mesmo TSE que impediu Lula de ser candidato à presidência, contrariando uma deliberação do Comitê de Direitos Humanos da ONU e tornando o Brasil um pária no cenário mundial.

Mais isso foi apenas o começo da desmoralização do país, que culminou com o histórico vexame de Davos. O governo Bolsonaro transita entre o absurdo, o ridículo e o trágico. Os ministros da Educação e das Relações Exteriores foram indicados pelo Guru do clã Bolsonaro, Olavo de Carvalho, um alucinado, grotesco e reacionaríssimo astrólogo que posa de filósofo. Os dois ministros, como seu mestre e patrono, são igualmente lunáticos, reacionários e grotescos. A ministra dos Direitos Humanos é uma pastora tresloucada que ataca as minorias e tudo o que não seja absolutamente retrógrado.

Mas o mercado pouco se importa com esse circo de horrores e está “eufórico”. A bolsa de valores bate recordes de alta, e o dólar cai. Isso porque o grande czar da economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes, vai implantar o receituário ultra neoliberal que não deu certo em nenhum lugar do mundo, mas é a fórmula garantida para aumentar exponencialmente o lucro e a concentração de renda, bem como a miséria e a marginalidade. Para garantir a PAX nesse cenário de horrores, o indefectível Moro já apresentou um pacote que concede licença para a polícia matar impunemente. Com isso, pretende legalizar o genocídio de jovens pobres e negros já em curso na periferia das grandes cidades.

Bolsonaro é certamente o sujeito mais inepto a ocupar a presidência da República em toda história do Brasil, quiçá o mais tosco governante que algum país já teve. Membro obscuro e medíocre do baixo clero parlamentar, representa o que há de pior na mentalidade do brasileiro médio, devidamente empobrecida pela massificação midiática: é misógino, racista, homofóbico, ignorante e autoritário. Por isso, se elegeu, para além das facilidades que lhe foram concedidas pela ditadura do judiciário. Mas, nem com todas as facilidades e o apoio, por vezes patético, da mídia reacionária e golpista, não se mostra capaz de governar. Para resolver esse impasse, veio à tona o esquema no qual ele e seus filhos pitbulls se apropriavam indevidamente dos salários dos excessivamente numerosos assessores parlamentares – um esquema de corrupção usual entre o baixo clero parlamentar. Isso pode ser usado para forçar uma renúncia de Bolsonaro (“por motivos de saúde”), assumindo o general vice, mais razoável e palatável – o que qualquer um é diante do Bozo.

Claro que ninguém será preso, porque eles não são do PT, nem muito menos Lula.

Nas vésperas do STF julgar a constitucionalidade da prisão em segunda instância, a juíza carcereira expede açodadamente mais uma estapafúrdia condenação contra Lula, para pressionar a corte suprema do país, cujos membros, em sua maioria, já se mostraram pusilânimes e oportunistas, com destaque para o atual presidente, Dias Toffoli, que hoje mais parece um ordenança do Exército.

Os militares, de forma cada vez mais explícita e atentatória ao Estado Democrático de Direito, demonstram que não aceitarão a libertação de Lula. São assim, mais uma vez, prepostos das elites verde-amarelas e da classe média udenista e conservadora. Se pudessem, eles esquartejavam Lula e penduravam os pedaços de seu corpo nas vias públicas (e isso aqui não é uma hipérbole). É preciso martirizar Lula para destruir tudo o que ele representa e fazer com que o Brasil  se reencontre com seu passado de escravidão e submissão humilhante às grandes potenciais mundiais.

O terrível e imperdoável crime que Lula cometeu e pelo qual a burguesia brasileira tudo fará para que ele morra nas masmorras de Curitiba, é ser o maior representante do projeto político de distribuição de renda, soberania nacional, inclusão social e respeito à diversidade que governou este país de 2003 a 2016. Por tudo isso, Lula já tem um lugar garantido no panteão dos grandes heróis nacionais, quiçá o maior deles. E o tempo levará os seus algozes ao lixo da história ao desprezo, ao opróbrio.

É um pensamento alentador, porém muito pouco se pode falar sobre o futuro do Brasil nestes tempos tão sombrios e adversos. Na “retrospectiva do futuro”, para usar essa pérola do Bozo, só me ocorre a lembrança do genial Millôr Fernandes que sentenciou: “o Brasil tem um enorme passado pela frente”.


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