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O "CONGE" DE MORO: O DISCURSO É MAIS PERIGOSO QUE A SINTAXE

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Braulino Pereira de Santana. Professor Doutor de Linguística da Universidade do Estado da Bahia, campus I, Salvador, Bahia. 

 

Um dos grandes legados da Linguística no século XX foi tornar evidente, em termos bem simplificados, que o discurso é mais perigoso do que a sintaxe (ou do que a ortografia, ou a pronúncia das palavras, como queiram).

As dádivas dessa herança, esforços de mentes brilhantes de variadas áreas da ciência linguísitca – que se estendem de Mikhail Bahktin com o monumental ‘Marxismo e Filosofia da Linguagem’, já ainda em 1929; passando por John Austin e suas teorias de usos da língua em seus aspectos constatativos e performativos; navegando pela riqueza das abordagens em variação linguística; e se deslocando por teorias do discurso nas décadas de sessenta e setenta –, espalham-se desde a análise cotidiana e vulgar do uso da língua a situações em que o padrão é exigido, como em discursos públicos pronunciados por autoridades em suas modalidades escrita e oral.

O ‘erro’ (de português, tanto escrito como falado), por exemplo, deixou de ser visto de uma forma ingênua e marcadamente moralista ou intolerante, relacionado a fatores cognitivos e de falta de domínio de modalidades mais cultas da língua, e passou a ser encarado como um uso legítimo da língua, mas em situação descontextualizada ou imprópria.

Estamos às voltas com uma autoridade pública, o atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, sendo malhado pela fala ‘errada´ da palavra ‘cônjuge’, que em pronunciamento do ex-juiz foi sincopada para ‘conge’ (escreve-se com ‘g’ pois houve uma síncope, um apagamento da sílaba [-ju-]). Ninguém em sã consciência duvidaria de que o ministro não tenha conhecimento de que o registro padrão desse termo seja ‘cônjuge’; ninguém em sã consciência duvida também de que ele não tenha entrado em contato antes, e inúmeras vezes tenha lido ou ouvido que o termo ‘cônjuge’ é o que se exige em uma situação formal de uso da língua como aquela a que ele estava exposto. Portanto, damos por certo que o ministro tenha plena consciência e conhecimento de qual termo seria de uso adequado, e de que a corruptela deveria ser evitada. O que portanto o impediu  de acionar o termo padrão, uma vez que ele o conhece e é de seu domínio?

Devemos, em consonância com os ensinamentos da linguística propostos nos primeiros parágrafos, descartar a ignorância, afinal, cidadão de alto nível de escolaridade, seria muito improvável que desconhecimento de fatores elementares de uso da língua seja acionado para isso. Seria cabotino, desonesto e ingênuo. Entrando na seara das especulações, vamos propor que: 1) a nova direita que ascende no Brasil e em outras partes do mundo, deslumbrada pelo poder quase messiânico que detém, não tem medo e nem vergonha de se atirar em precipícios de linguagem; 2) o ex-juiz, que já se enrolou no passado com usos inadequados do português padrão, talvez sofra algum tipo de déficit linguístico relacionado com dificuldades de uso da língua padrão em situações formais, de tensão – como aquela em que ele usou e reiterou o termo ‘conge’.

Todos nós temos consciência de que o tempo de planejamento da modalidade escrita da língua é muito maior do que o tempo de planejamento da fala. Um texto escrito, dadas as próprias idiossincrasias de sua estrutura, exige tempo, raciocínio, idas e vindas, deslocamentos de palavras ou parágrafos inteiros; pode ser revisado, enfim, pode até ser apagado sem que ninguém saiba que ele existiu.  Isso não acontece com a fala, geralmente instantânea, sem volta.

Temos atualmente presidentes tuiteiros nos palácios de governo, e aquele que inaugurou a coisa toda, o norte americano Donald Trump, é danado para postar textos com erros ortográficos de inglês: ele grafou, por exemplo, ‘unpresidented act’  (ato não presidido) ao invés de ‘unprecedented act’ (ato sem precedentes);  ‘honered’ ao invés de ‘honored’ (honrado); promover a possibilidade do pêssego (peach) duradouro, ao invés de paz (peace) duradoura; ‘to great’, quando a frase exigia ‘too great’ (demais); ‘uniom’ ao invés de ‘union’ (União). Avessa à mediação e sem paciência para o diálogo, a nova direita se mostra impulsiva, inconsequente e precipitada em sua força pra dizer o que lhe convém sem a humildade de ouvir o que os adversários (para ela, novos inimigos) têm a dizer, e o uso açodado da língua com esses erros evidenciam isso. Enfim, sem parar pra pensar direito no que escreveu antes de publicar. É a certeza da razão. Ou da impunidade.

Nesses termos, tem-se forte intuição de que Moro, em sua inabalável certeza das coisas, não demonstra medo nenhum em se atirar em precipícios, inicialmente de linguagem, e consequentemente para outros abismos, empurrando o Brasil para o buraco gramatical em que ele se encontra.

No entanto, não meçamos as pessoas por descuidos de expressão de linguagem ao invés de julgá-las pelo conteúdo daquilo que elas falam, afinal, o plano da expressão talvez seja um pouco menos inofensivo do que o plano do discurso ou do conteúdo. Mas alguém que não tem nem a capacidade de fazer hipercorreções (corrigir a sua própria fala no momento em que fala, e até mesmo rir de si mesmo se cometeu algum deslize gramatical, afinal, todos nós estamos predestinados a cometer erros ao não termos consciência plena e instantânea daquilo que a gente fala, uma vez que o planejamento da língua falada exige habilidades bem marcadas), de voltar atrás, com certas probabilidades deve sofrer de algum tipo de síndrome demiúrgica.

O discurso se projeta como mais perigoso do que a sintaxe uma vez que ele se trata de uma armação da cultura, ele se relaciona com formas de disputas pelo poder, pelos bens, pelos espaços e pela alma das pessoas; enquanto a sintaxe se projeta da mente como algo natural, uma inscrição na mente humana, herdada de movimentos atávicos, uma condição inalienável. Nesses termos, por mais que associemos erroneamente usos de registro inadequados da língua proferidos pelo juiz Sérgio Moro a uma discutível ignorância gramatical, ainda é pouco para medirmos o grau de perigos que as suas ideias à frente do ministério da Justiça ainda são capazes de oferecer.

Talvez seja mais prudente a valorização da fala das pessoas quando ela é usada para fortalecer laços e direitos, mesmo que em ‘português errado’. Não há nada mais vulgar do que se expressar em português sofisticado quando a razão é fragilizada. As consequências do discurso de Moro podem ser mais perigosas do que o modo como ele pronuncia as palavras.

 

 


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