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BRASIL EM ARMAS!

BRASIL EM ARMAS!

      O CÁGADO E AS PALAVRAS DO SILÊNCIO

                                  BRASIL EM ARMAS!

                                      Manuel Rui* 

O Brasil está entre os 25 países que mais fabricam armas mas os países que exportam a maior parte de armas, correspondendo a 75% das exportações globais, de acordo com o Instituto de Pesquiza da Paz Internacional de Estocolmo do ano passado, são os Estados Unidos, Rússia, China, França e Alemanha. Repare-se que americanos e russos são responsáveis, respectivamente, por 36% e 21%.

A primeira arma de fogo terá surgido na China com a invenção da pólvora, mistura de salitre, enxofre e carvão vegetal que explodia em contacto com o fogo, essa mistura era colocada em tubos de bambu para arremessar pedras até que no séc. XVI o mosquete, antepassado do “canhangulo,” é a primeira arma para os grandes exércitos.

As armas de fogo foram inventadas para as guerras e foram evoluindo como indústria que não parou nem faliu e para níveis de destruição que, sem esquecer Hiroxima e Nagasáqui com as duas bombas atómicas lançadas pelos americanos contra os japoneses, o mundo espanta-se com a nuclearização armamentista com destaque para a Coreia do Norte.

No entanto, segundo a história de cada país, a posse e porte de armas individuais para civis é regulamentada em alguns países incluindo aqui no nosso continente, o Chade, Namíbia, Nigéria, República Democrática do Congo, Senegal, Tanzânia ou Zâmbia. A regulamentação varia de país para país quanto ao tipo de armas e perfil dos utentes quanto à necessidade. As armas que foram inventadas, fundamentalmente para atacar, passaram a ser usadas para defesa individual.

O Brasil é o 9º país mais violento do mundo mas em homicídios por 100 mil habitantes tem 28,9 enquanto os Estados unidos batem 4,8.

Mas vamos ao que interessa, o Brasil de Bolsonaro. O Brasil do futebol que fez manifestações contra Dilma por causa das despesas com o campeonato do mundo, quase mau presságio que acabou com a cabazada sofrida frente à Alemanha. É este Brasil em que o então ainda candidato a presidente apareceu com gesto de empunhar um espingardão para matar “essa negralhada toda.” Ultrapassa a perplexidade quando, no país com mais população negra no mundo a seguir à Nigéria se tratam os negros como minoria. Aqui um “sobrinho” de afecto gozava comigo assim: “tio, quem abre a televisão pela primeira vez e começa a acompanhar os passos de Bolsonaro parece que não é racista porque ao lado dele anda sempre um negro dando a impressão tratar-se do vice-presidente, ah! Ah! Ah! Mas é o seguras, faço ideia, ele que já é um armário, imagino o colete anti bala por baixo do casaco! Que sabe se não é descendente de escravos angolanos! Pior é na assembleia que antes de começar tem muito negro de pé, vestidos a rigor de colarinhos à bife e laço. Só quando começam os debates com gritaria é que se percebe que são criados! E as armas, tio?”

Sim, o direito a porte de armas para civis foi um dos principais parágrafos da campanha eleitoral de Bolsonaro que já legislou por decreto que pode levar chumbo no legislativo ou na justiça suprema por discutível inconstitucionalidade.

O Rio de Janeiro e não só, vive em permanente guerra civil e para matar nas favelas foi inventada uma tropa pacificadora. Há um constante terror das populações, uns não saem de casa à noite com medo de serem assaltados na rua e outros vão para a rua com medo de serem assaltados em casa… Podem-se colocar muitas situações caricatas. Assim, um polícia de trânsito manda parar um cidadão e pede os documentos. O cidadão abre o porta-luvas, saca de um revólver, dispara e era uma vez um polícia. Onde se guarda a arma em casa? Num cofre? Então se o bandido assaltar a casa é preciso ir ao cofre para disparar contra o bandido? Ou guarda-se na mesinha de cabeceira para a criança tirar a arma, chegar à escola e disparar contra os colegas? Há aqui uma inversão de valores. As pessoas deveriam ser educadas, desde a infância, a favor da paz, contra a violência e armas de fogo…em vez de se fabricarem metralhadoras, canhões e blindados de brinquedos para oferecer no Natal! Mas alguém pode emprestar a arma a um amigo bandido ou alugar ou vender. E numa família grande pode haver vários titulares de porte de arma, o marido é juiz, a mulher advogada, o filho investigador policial… e quando a família se zanga vai daí um tiroteio. Mais: os crimes de violência doméstica com faca vão ser substituídos e facilitados pelo uso de pistola. Também um cara chega na bomba de gasolina, saca da xifuta, tudo de mãos no ar, enche o depósito e pira-se. Mas quem é que com um mínimo de juízo saca da pistola para se defender quando cinco bandidos com espingarda de rajada lhe assaltam a casa? Aconselha o bom senso que a primeira coisa é entregar a pistola aos invasores. O embuste disto tudo está na incapacidade de combater a violência, obriga os marginais a matar mais no pressuposto de que o assaltado está armado. E o embuste esconde o sórdido negócio de venda de armas que não são baratas pois isto se tivesse algo a ver com direitos humanos, o estado deveria oferecer armas aos pobres e sem abrigo, aqueles que na minha infância chamávamos de Cocó, Ranheta e Facada. Ponto!    

 

Manuel Rui Alves Monteiro , mais conhecido por Manuel Rui, é um escritor angolano, autor de poesia, contos, romances e obras para o teatro.  Cursou Direito em Coimbra, graduando-se em 1969.  Exerceu advocacia em Coimbra e Viseu durante a Guerra de Independência de Angola. É autor da letra do Hino Nacional de Angola e de outros hinos como o «Hino da Alfabetização» e o «Hino da Agricultura». Foi ainda diretor da Faculdade de Letras do Lubango e do Instituto Superior de Ciências da Educação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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