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A REPÚBLICA EM XEQUE

A REPÚBLICA EM XEQUE

Dante Lucchesi. Linguista professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)

 

O que era óbvio e evidente – que a Lava Jato era uma organização que agia com fins político-partidários, e Moro não tinha a menor isenção e imparcialidade – agora ficou comprovado. A matéria do site The Intercept revela que Moro agia em conluio com Dallagnol, favorecendo a acusação e tramando contra defesa do presidente Lula. A Constituição é clara: o juiz não pode manter contato com qualquer parte do processo – acusação ou defesa – fora dos autos e da audiência. Tudo deve ser público e transparente. A articulação de Moro com o MPF em privado é mais do que suficiente para configurar sua suspeição e tornar o processo que condenou o Presidente Lula nulo. Mais do que isso, Moro e Dallagnol podem ser processados por formação de quadrilha e falsidade ideológica. Eles deturparam o devido processo legal, com fins escusos e ilícitos. Travestiram de processo legal o que era um ato de perseguição político-ideológica. Usaram indevidamente as instituições públicas com fins político-partidários. Em outra passagem, os procuradores da Lava Jato estão em polvorosa, tentando evitar que Lula desse uma entrevista antes das eleições presidenciais, porque isso poderia favorecer a eleição de Fernando Haddad, do PT. É claramente uma organização político-partidária, e não uma seção do MPF. Moro já tinha sido recompensado pelo presidente que ele ajudou a eleger, com o Ministério da Justiça. E a Lava Jato foi regiamente paga, com 2,5 bilhões de reais, pelo governo dos EUA, a quem essa organização tem servido com denodo, no acordo lesivo à Petrobras. Assim, com a reportagem do Intercept, eclode o maior escândalo da história recente do país e do judiciário brasileiro.

Porém, não se pode esperar que os oligopólios da mídia, que agiram de forma político-partidária contra o PT, deem a devida repercussão às evidências da atuação político-partidária, ilegal e criminosa da Lava Jato. Não se pode esquecer que a Lava Jato só tem o poder que tem, em função do apoio irrestrito da mídia golpista. Foi a articulação entre a Lava Jato e essa mídia canalha que possibilitou o golpe de 2016, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro.

Além do apoio incondicional, a mídia atuava ideologicamente naturalizando as ilegalidades de Moro e da Lava Jato, como um julgamento técnico e isento. Sustentou a farsa de que o impeachment era constitucional, e naturalizou Bolsonaro como um candidato normal, dissimulando sua real natureza, de uma aberração fascista ligada visceralmente ao crime organizado das milícias cariocas.

Mas, agora, “a casa caiu”! Toda a farsa da Lava Jato se desnudou, embora a mídia canalha procure mais uma vez tergiversar, destacando que as gravações foram obtidas de forma ilegal. Mais uma vez se escancara a incoerência e manipulação da mídia oligopolizada. Ela que destacava o interesse público que legitimava os vazamentos ilegais da Lava Jato, agora não reconhece o elevadíssimo interesse público das revelações do Intercept, que, ao contrário de um juiz, como Moro, tem a liberdade de publicar documentos de interesse público, tendo a prerrogativa preservar as suas fontes.

Em uma República digna deste nome, todas as instituições públicas deveriam se mobilizar diante da gravidade das revelações. O impacto da Lava Jato na vida política do país, nos últimos anos foi imenso. Pode-se dizer que ela determinou os rumos que o país tomou desde 2014. Então, quando vêm à tona evidências de que tudo foi uma farsa, levado a cabo por uma organização criminosa movida, por interesses político-partidários explícitos, as consequências são gravíssimas, inclusive pondo em xeque as eleições presidenciais de 2018, pois Bolsonaro foi eleito porque Lula foi impedido de concorrer, como tudo indica. E Lula foi impedido de concorrer porque foi vítima de uma farsa jurídica, referendada por um tribunal de exceção, o TRF-4, que resta agora totalmente desmoralizado.

Assim, ao dizer que se estava fazendo uma tempestade em copo d’água com as revelações do Intercept, FHC se credencia a ser a figura política mais canalha e desprezível da história recente do país. Espera-se que as instâncias superiores do judiciário, sobretudo o STF, assumam a responsabilidade que a situação exige. Caso contrário, se o julgamento de Lula não for anulado, se Moro e Dallagnol não forem julgados por seus atos ilícitos, o país ficará totalmente desmoralizado perante o mundo. O judiciário brasileiro, perderá toda a credibilidade. Além de já ser um dos mais caros, ineficientes e corruptos do mundo, ficará claro que permite que seus membros usem de seus poderes e prerrogativas para perseguir e destruir lideranças políticas, ao arrepio da lei e violando os princípios fundamentais da Constituição e do Estado Democrático de Direito.

O que está em jogo agora é a própria República. Se os fundamentos mais básicos da Constituição e do Estado de Direito não forem preservados, só nos restará a barbárie.


O que dizem

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  • 14.06.2019 - José Carlos Sant Anna
    Dura realidade, é duro vivê-la. Vamos lutar para a mudança!
  • 14.06.2019 - Fabio
    Realmente, tem juízes que extra muros podem ditar o que deve ser escrito no processo pelo procurador. Sera que isso acontece?
  • 14.06.2019 - Machado Filho, Américo
    Parabéns, Dante. Precisamos de pessoas que lutem pela República, neste momento tão sombrio.

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