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O ROMPIMENTO DOS HIMENS DA LAVA JATO

O ROMPIMENTO DOS HIMENS DA LAVA JATO

    Braulino Pereira de Santana. Doutor em Linguística pela UFBA. Professor da UNEB, Campus I

 

A primeira frase do texto “Algumas notas sobre a Operação Vaza Jato” (assinado pelo sociólogo da UESB Matheus Silveira Lima e postado num blog administrado de Vitória da Conquista), que começa com “Todos os episódios...” e termina com “...mostrar ao mundo” (1), abre e ao mesmo tempo se encerra com uma linha de raciocínio especulativa, polêmica e parcial (parcialidade no debate público traduz bem a estratégia narcísica, autocomplacente e falaciosa que certos sociólogos tucanos de gabinete e de sintaxe-Odorico Paraguaçu tão bem emulam para enganar todo mundo), numa clara tentativa desesperada de reconstituir o rombo dos tampos dos himens da Lava Jato e suas táticas abusivas, intimidatórias e ilegais.

Algumas entradas pontuais do texto do sociólogo tucano (a gente pensa que esse tipo de ave é nativo das regiões sul e sudeste mas às vezes a gente se surpreende com o poder de migração desse tipo de praga) precisam de contestação, não porque se trate de verdades ou inverdades – a especialidade de um certo tipo de debate público nos dias de hoje está pouco interessada em nobrezas como verdades ou falsidades. O que sobressai nessas “notas” é a argumentação por conveniência, é a venda casadinha das ideias, é a reprodução cega de factoides amplamente plantados pela mídia corporativa, é o jogo de palavras cruzadas e simétricas com o objetivo de forçar uma audiência a aceitar ideias a serviço da destruição de si mesma.

Não farei o jogo rasteiro das vingancinhas adolescentes e pueris: ‘estamos fazendo isso porque vocês também fizeram no passado’, numa falsa simetria plantada para justificar o injustificável. O caso do exemplo com a mal explicada lambança envolvendo liminar emitida pelo ministro Marco Aurélio Mello (2) não chega a ser baixo porque é impossível abaixar ainda mais algo que já está no chão. Ao final deste texto, reproduzo leviana acusação de proxenetismo levantada pelo sociólogo tucano ao insinuar trama entre o ministro Marco Aurélio Mello e advogados do ex-presidente Lula. A fonte de segunda mão desse sociólogo é a revista Veja. Ou ele acha que, independente do conteúdo da liminar do ministro, os advogados de Lula iriam interpelar para que o ex-presidente fosse preso? Ou fossem bobinhos (essa palavra vai voltar neste texto novamente) o suficiente para não entender que prisões em segunda instância deveriam ser suspensas até que fossem transitadas em julgado? Desonestidade intelectual, boquirrotismo e queixo duro são especialidades tucanas há décadas.

Resolvi replicar alguns pontos do texto de estilo empoeirado do sociólogo tucano porque essas ervas semeadas como se fossem análise de conjuntura respeitável não passam de sementes daninhas distribuídas para iludir. Trata-se do canto da sereia reciclado.

O que se evidencia com estardalhaço somente agora pelo vazamento do site The Intercept de há muito já foi demonstrado, e nem por isso mesmo objeto de repercussão ou de investigação, já que os punidos não se trata de seres humanos (mas de inimigos de classe), indignos do merecimento de recursos de defesa pilares iluministas e fundadores do pouco que temos que resguardar na Justiça do Ocidente: ‘inocente até se prove o contrário’; ‘o ônus da prova cabe a quem acusa’; ‘a medida da culpa está nas evidências’, e não na aberração da teoria do domínio do fato. A operação de construção de mitos e dândis messiânicos, seja na política seja no jurídico, durou pouco, como se vê.

Abram-se uns parênteses: se fosse um brasileiro ou estrangeiro a vazar conversas do judiciário e do ministério público americano, ou com esse tipo de procedimento agindo nos USA, tenho forte intuição de que o FBI já o teria interceptado, já o teria engalanado naquele macacão laranja, algemado pernas e mãos (eles são craques em humilhar pessoas) e condenado à prisão perpétua – a russa que eles acusaram de espionagem recentemente que o diga. E a batata de Julian Assange já está no forno. Eles não perdoam ninguém. Fecham-se os parênteses.

Trata-se de raciocínio especulativo por comprar pelo valor de face a teoria da atuação de hackers, uma vez que não se pode descartar a agência sofisticada de algum serviço secreto estrangeiro para capturar tanto assim como se alardeia ter-se capturado – hipótese muito mais plausível na medida em que tantos interesses estão em jogo.

O engodo dissimulado de politesse estampado na sentença “desses temas controversos que o Brasil (...) especializou-se em mostrar ao mundo” (1) esconde ignóbil parcialidade, uma vez também que, se há algo em que o Brasil se especializou, ‘temas controversos’ passa ao largo disso. Gente sonsa, que escreve como FHC, e imagina que os leitores trata-se de madames de sacristia.

A elite brasileira (capitaneada pelo tucanato indecente derrotado no voto há pelo menos mais de uma década) especializou-se na verdade em abandonar todo mundo; conluiada com setores da mídia corporativa e com setores do judiciário, especializou-se em exportar imundícies pela militância de procuradores-com-partido, juízes eticamente aleijados, jornalistas viciados no crack-dinheiro dos seus patrões, também em conluio com o sistema financeiro. É essa a verdade. Não pode haver controvérsias em relação a isso. Any question?

E o modus operandi doutor-rolando-o-lero de argumentar continua. Por que só agora essas preocupações sazonais com a ‘questão das fontes’ (3) é objeto de rasa investigação teórica? O “possam (as fontes) ser validadas em seu conteúdo” (3), com esse ‘possam ser’ condicional blasé, é o ataque do queixo duro em ação: há muitos anos que a defesa do ex-presidente Lula demonstra a descarada parcialidade de que vem sendo vítima. Somente agora, quando não tem mais jeito, quando a vizinhança toda já sabe que o cabaço foi quebrado, o hímen da Lava Jato perdeu sua áurea de complacente. Por que somente agora, quando as fontes não lhe são favoráveis, surge essa pergunta? Especulo uma resposta: militância panfletária travestida de verniz acadêmico.  O que o desmascara é o silêncio total em relação às fontes quando os vazamentos, a cada vinte e quatro horas, com ampla cobertura pela mídia corporativa, serviram para demonizar indiscriminadamente setores inteiros dos justiçados no ninho de serpentes de Curitiba. Se não for pra ter pra todo mundo não pode ter pra ninguém. Típico dessa sociologia utilizada para alugar o Estado para fins próprios, aquilo que um dia foi chamado de estado patrimonialista, estacionada em algum lugar da USP dos anos sessenta.

O conceito de fontes precisa ser revisto, uma vez que o mundo dificilmente vá girar mais em torno de acordos na calada da noite. Precisamos conviver com satélites, interceptações, esconderijos mal planejados, grampeamentos astuciosos, nudes de assalto ao estado hoje dificilmente silenciosos. Hoje em dia não existe mais a noite – o dia se impõe vinte e quatro horas com seu sol abrasador.

Um outro ‘argumento’ infantiloide, que cabe em qualquer contexto, é a acusação de que o jornalista americano publica ‘trechos soltos e descontextualizados’ (4). Opera-se, como se vê, com uma noção escolar do conceito de contexto, como se houvesse um tempo e um lugar fixos e inertes de onde as falas expostas emergiriam. Os lugares e os tempos são irreprodutíveis. Só existem enquanto estão existindo. São irrepetíveis. Mas não as pessoas. O contexto é o ser humano. O contexto são seres humanos agindo para determinados fins e objetivos. Nem o juiz eticamente aleijado e nem o procurador (nas palavras de um ministro do STF) bobinho negaram que disseram aquilo, negaram que praticaram aqueles atos. Em combinação, eles atuaram para empombar a candidatura do ex-presidente Lula nas eleições de 2018.

Merece um capítulo inteiramente à parte a militância política (política aqui quer dizer lascivamente devassa) do procurador bobinho, e aquele ar de seminarista em desvario, tentando conter o que não pode mais ficar retido, obsessivo para cumprir ordens eroticamente impostas pelo juiz eticamente aleijado, naquele powerpoint que jogou a opinião pública desinformada e cúmplice a agir como uma horda contra o ex-presidente Lula. Somente o desejo (não é o poder nem o dinheiro) é capaz de nos empurrar para as ilegalidades, para os desassuntes. O mito grego do rapaz honrado encarnado pelo bobinho de Curitiba não enganou ninguém: todo mundo viu que, por trás daquela dissimulação toda, jazia um vulcão, naquela pele queimava uma febre mal disfarçada naqueles diálogos que ele mantinha indevidamente com o juiz eticamente aleijado. Só para contextualizar um pouco (para essa gente que adora um contexto, e volta e meia, flagrada com o batom na cueca, apela para as devidas ‘descontextualizações’ da verdade pura e cristalina que acaba de ser dita – há argumento mais vagabundo de que esse?) este anômalo parágrafo, ele foi escrito enquanto eu estava escutando “Faz gostoso”, do novo disco da Madonna: “(...) eu não nego ele é safado e ainda por cima é carinhoso / ele faz tão gostoso, ele faz tão gostoso”.

Não custa nada relembrar que a sociologia tucana vinha sendo derrotada e foi fragorosamente banida nas eleições de 2018 porque já vinha fazendo água nas academias e como ferramenta de análise da realidade polarizada e internetizada dos dias de hoje. Não mobiliza mais nenhuma mente ou coração. Encontra guarida forçosamente em alguma aula fuleira de ciência política (aluno, coitado, tem que aguentar cada esculhambação...!) ou para alguma plateia não previamente avisada se quer ou não ser iludida.

A adesão ao ideário neoliberal com a alienação das riquezas nacionais, a agenda da mídia corporativa da classe média do sudeste e sua hegemonia baseada na pele branca e no abandono das periferias, o silêncio em relação aos achaques do capital financeiro, tudo isso pode ser adotado como um ideário político em si, mas terá que deixar suas premissas bem claras para a audiência. Não poderá ser mascarada com a cal da educação de gabinete tentando ser universalizante, dando o golpe de uma narrativa desinteressada.

Ninguém aqui está mais para aceitar tão facilmente  a segunda parte da música da Madonna: “(...) esse cara é perigoso, mas faz tão gostoso / ele faz tão gostoso”, é por isso que fico com ele – custe o que custar.

 

P.S.: Transcrição de fragmentos do texto do professor da UESB citado acima:

 

1.Todos os episódios de vazamentos de informações privadas colhidas ilegalmente por hackers, bem como as circunstancias em que eles vêm sendo apresentados, é um dos desses temas controversos que o Brasil dos últimos cinco anos especializou-se em mostrar ao mundo.

2. Em dezembro de 2018, no apagar das luzes do recesso de final de ano, o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, emitiu uma liminar determinando que prisões em segunda instância deveriam ser cassadas até que fossem transitadas em julgado.

Ocorre que a decriptação do pedido de Habeas Corpus do ex-presidente Lula, contendo pormenores da decisão do ministro, havia começado a ser escrito antes da publicação da liminar: ou seja, quem colocou uma liminar de um ministro do STF na mesa dos advogados de Lula antes de sua publicação? Até o momento presente, em nome do Estado Democrático de Direito, ainda não li uma única linha pedindo a exoneração e prisão do insigne ministro.

3. A questão das fontes. Queira-se ou não o que o jornalista Glenn Greenwald tem feito desde domingo é reescrever a história recente do Brasil a partir de novos dados coletados de forma heterodoxa, método que para o direito tem relevância, porque obtidos ilegalmente, mas para a política e a história não, já que sua legitimidade pode ser confirmada tão-somente pela sua própria existência: assim, para esses ramos sociológicos do saber, o que deveria ter relevância é que as novas fontes sejam validadas universalmente em seu conteúdo e todos possam ter acesso às informações integrais e delas apresentar a interpretação que bem entender.

4.Pra fins de comparação, imaginem que Glenn afirme ter um livro inédito de S. Freud apoiando o nazismo, as experiências do Dr. Menguele e a cura gay, mas que só ele, Glenn, pode ver o livro e publique trechos soltos e descontextualizados. Como a comunidade cientifica reagiria? É essa a primeira e incontornável questão que se nos impõe. Mais uma vez, a título de comparação, a fidedignidade de trechos e compilações da obra de Friedrich Nitezsche é envolta em controvérsia há quase um século devido a mutilações que sua irmã impôs às suas idéias após sua morte. Se há algo que julgamos sério no Brasil é a conduta acadêmica daqueles que ocupam cátedras universitárias e o controle burocrático e por pares que exercemos uns sobre os outros.


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