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AS DISCRETAS INFINITUDES MUSICAIS DE JOÃO GILBERTO

AS DISCRETAS INFINITUDES MUSICAIS DE JOÃO GILBERTO

João Batista de Castro Júnior. 

 

Por não ser musicista, sempre esbarrei em dificuldades na tentativa de esquadrinhar João Gilberto. Como se dizia e redizia aqui e além-mar que era um gênio, nas vezes em que seu nome virava tema de rodas de conversa, para não ficar de fora da centralidade, eu então sacava algumas das pitorescas estórias que o envolviam, como a do gato que pulara do prédio por não suportar a obsessiva repetição por dias de um único tom ao violão, ou a do hábito de jogar uma pedrinha no apartamento de Nara Leão, que recepcionava personalidades como Tom Jobim e Vinícius de Moraes, para que ela lhe dissesse quem estava lá antes de decidir se subia ou não, ou ainda a da passagem em que se procura convencer Tim Maia, proverbialmente conhecido por não dar as caras nos próprios shows, a comparecer a certa homenagem à cidade do Rio de Janeiro, com o argumento de que João Gilberto vai, ao que ele responde: “João vai? Ótimo, eu também não vou, não”.

Por ser apreciador de música popular, o interesse pelo anedotário foi dando lugar à melhor fruição dos significados daquela musicalidade e aí passei a acreditar que a famosa batida, com a mão esquerda avançando e atrasando a entrada de acordes dissonantes e em combinação com deslocamentos no ritmo vocálico, era a melhor estampa traducional de célebre imagem bíblica: a escala de seu violão semantiza a escada diatônica de Jacó na busca da harmonia celestial, aspecto que é também capaz de explicar por que João se bastava a si mesmo, desafeito dos pregoeiros baratos das multidões terrestres cada vez mais embriagadas pelo licor dos prazeres fáceis: “E não tem mais nada não/ O meu coração pediu assim, só”.

Não sei se é certo que os números governam ocultamente o mundo, como sempre quiseram os neopitagóricos, mas é intrigante que João ascenda aos céus aos 88 anos, um par numérico que, ao ser posto na horizontal, parece simbolizar suas discretas infinitudes musicais que cuidadosas notações tentarão melhor capturar a partir de agora.

Num momento em que as cruezas mais atrozes se instalaram resistentes na intimidade de muitos corações do mundo, o encantamento de João – como diria da morte o xará Guimarães Rosa, seu alter ego literário, na compreensão de Chico Buarque – não poderia deixar de ser mais um lance quântico da Providência, que o cântico da Boa Nova musicado por um de seus mais afeiçoados discípulos, Gil[berto], traduz: “tem que morrer pra germinar”.

Vitória da Conquista, 7 de julho de 2019.


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