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O EMBUSTE MIDIÁTICO DE JANOT

O EMBUSTE MIDIÁTICO DE JANOT

João Batista de Castro Júnior. Professor do Curso de Direito da Universidade do Estado da Bahia,  campus Brumado.

A historieta de Rodrigo Janot, de que seus instintos mais primitivos de jagunço de beca afloraram na casa máter da Justiça, apresenta sentidos e significados menos claros, que terminam embotados pela octanagem da suposta revelação.  

Nesse caso, é preciso olhar para os detalhes. Como gostam de dizer os alemães, “Der Teufel steckt im Detail' (“O diabo mora no detalhe”). E os pormenores, visíveis e ocultos, são bem significativos nesse caso.

Particularmente, acho que ele não está falando a verdade. Mas, deixando isso de lado, porque é factualmente inverificável, convém prestar atenção no momento temporal da confissão: o ocaso da credibilidade de Moro e dos seus asseclas da Lava Jato. Janot quer, então, apagar suas impressões digitais na construção daquela cidadela judiciária de Curitiba que ateou fogo à Constituição e ao Código de Processo Penal, destruiu indevidamente reputações, condenou sem provas no caso Lula, tudo paralelamente a uma atividade política a que só faltou mesmo a filiação formal a um partido político.  

Hoje a farsa cinematográfica está ruindo à volta de Moro e dos procuradores. O atual Ministro da Justiça não contava que iria se tornar mero capacho de um presidente boquirroto, de piadas grotescas e insulsas, e que quer antes de tudo salvar a pele dos filhos. Dallagnol, por sua vez, só não foi suspenso e em seguida chutado do MPF porque o corporativismo que o protege teme que se comece a fazer revisão das regalias, desvios e protecionismos que a instituição assegura a muitos de seus membros à custa do suor do contribuinte, o que a torna concorrente negativa de um Judiciário com histórico débito social, em relação ao qual se esperava, desde os trabalhos constituintes de 1987-1988, que ela mostrasse mais austeridade exemplar, incompatível com tantos privilégios e menos ainda com escaramuças que fariam corar cangaceiros.   

Não é só esse o plano do ex-procurador geral da República. De gestos calculados, tal como por ocasião da declaração de intenção de voto em Haddad nas eleições presidenciais, estratégia montada simplesmente para tentar pós-legitimar sua falsa isenção à frente da PGR, ele não teme o risco de fazer perigosamente retornar o nome da própria filha ao escrutínio inquisitorial que poderá ser instaurado para saber qual de fato era o grau de envolvimento e de tráfico de influência dela na advocacia em favor de investigados na Lava Jato. No fundo, no fundo, quer mesmo é dar credibilidade a tudo mais que está no livro, pretendendo com essa manobra livrar-se do desprezo histórico por ter sido covarde em todo o episódio da Lava Jato contra Lula.

Mas, como diria Garrincha, faltou combinar com os russos, já que ele não parece contar com o fato de que seu ardil discursivo é coisa de principiante na arte de camuflar a verdade. É até perda de tempo pôr em desfile sua fieira de desatinos, considerando que Eugênio Aragão já enfrentou bem o tema, sem falar que, além de tudo, se esse homem é capaz de atirar a própria filha às feras do escândalo, não se poderia esperar dele, quando na PGR, um correto e isento trato jurídico para com a situação do ex-presidente vítima de justiceiros de toga.

 

Vitória da Conquista, Bahia, 27 de setembro de 2019.


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