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LUGAR DE FALA

LUGAR DE FALA

 

Braulino Pereira de Santana, Doutor em Linguística pela UFBA, professor titular do DEDC/UNEB.

 

Um programa da TVE em andamento e flagravam-se algumas garotas pretas bem sucedidas (uma garota preta bem sucedida exibe uma barriga negativa e faz Comunicação na UFBA ou Pedagogia na UNEB).

Enquanto aquelas bonitezas todas desfilavam na frente das câmeras, o telespectador era sorrateiramente enredado por um incômodo mal estar que brotava não necessariamente da presença lacrimejante daquelas meninas em cena – embora elas também meio que involuntariamente fossem cúmplices daquela perversidade toda –, mas da própria determinação do puxadinho discursivo que lhes cabia, imposto a elas pelos gerentes de mídia, todos brancos: o seu exato (e tão desejado) lugar de fala. Aquelas meninas ali estavam autorizadas a dissertar tão somente sobre questões “raciais”, e numa chave exclusiva de lamentações e sofrimentos apontando culpados e processos genéricos sobre o racismo de que elas se diziam vítimas.

É tão somente esse o lugar de fala reservado para elas, seu novo papel no ambiente democrático da mídia pós internet. No teatro que ali lhes era exclusivo, elas eram escaladas para o papel amarelado de vítimas eternas, num chororô rococó envergonhante e autocomplacente, chamando atenção para si mesmas e não para a história.

Pois é disso que se trata – ao aceitar docilmente o papel monocromático de eternas vítimas de racismo, aquelas garotas demonstravam desconhecimento histórico, uma vez que isso já foi feito, e de forma muito mais substancial: Carolina de Jesus sobressai talentosamente nesse quesito, debulhando um rosário de agonias que ultrapassa o tempo.

Em entrevista nos anos 1970,  Zezé Mota já apontava a ausência de pretas em papéis mais centrais e decisivos nas telenovelas, geralmente escaladas para personagens de empregada doméstica ou de escravas quando a teledramaturgia enfocava o Brasil colonial. Que desolação assistir, décadas depois, as coisas permanecerem no mesmo lugar, vide a escalação daquelas garotas para tratar exclusivamente sobre questões raciais, como se o racismo fosse uma preocupação somente para pretos. Nunca ficamos sabendo o que professores ou intelectuais não negros pensam sobre isso, uma vez que essas questões nem fazem parte do cotidiano dessas pessoas, como se racismo não fosse algo que afeta ou que é produzido por pessoas negras e não negras.

O que se via ali era uma espécie absurda de homogeneização de mentalidades, um tipo de naturalização do lugar da discussão sobre racismo como se isso fosse algo exclusivo de um certo tipo de indivíduo, como se aquelas pessoas só conhecessem aquilo. A fala daquelas garotas compunha uma agenda de retrocessos, de guetização dos artefatos de reflexão sobre a realidade. 

O programa se desenrolava e não se fica sabendo o que exatamente pensavam aquelas garotas para além do estereótipo de vítima de racismo: será que elas teriam algo a dizer sobre o cinema nacional? Temos uma crise econômica que devasta camadas inteiras da população: o que elas propunham para encararmos isso? A história da arte pode ser classificada em tendências? Elas teriam como discutir teoricamente isso? A literatura brasileira pode ser um objeto teórico para elas?

“(...) Parte da força da ideologia burguesa reside no fato de ela ‘falar’ a partir de uma multiplicidade de situações” e, nesses termos, se vender universalmente (Terry Eagleton). Ao interditar a circulação da diversidade de vozes daquelas garotas, impedindo-as de dissertar para além do gueto que as confina como vozes a falarem apenas sobre sofrimentos raciais subjetivos e difusos, os controladores da mídia redesenham o antigo papel de empregadas domésticas e escravas. Nesses termos, a própria noção “lugar de fala” emerge como uma armadilha, um tipo de monologização da consciência. O lugar de fala impõe a experiência como um atributo básico para o estabelecimento da verdade, como se a verdade ela mesma não se estabelecesse como um discurso.

Dia desses, num programa de TV, a família de Daiane dos Santos foi convidada a falar sobre o sucesso da filha. O locutor branco da Rede Globo, vulgar e despudorado, como é comum a esse tipo de gente nessa posição, apresentou os pais da ginasta como uma família ‘humilde’, que lutou com todas as forças que lhe foi possível para que a filha chegasse a disputar uma olimpíada. Ora, no jogo das relações de poder da linguagem, todo mundo que fala português como primeira língua é necessariamente de “origem humilde”, já que o português, língua vagabunda e sem prestígio, ocupa lugares de extrema pobreza discursiva ao redor do mundo. A família, coitada, sem saber se defender nesses termos, aceitava aquilo como algo natural. Mas aquelas garotas, aceitando passivamente o papel de eternas vítimas de racismo, sem ao menos encontrar uma forma orgânica de refletir sobre as suas próprias vidas, atuam de forma conveniente, e até mesmo conivente, com a preservação do lugar que os donos das mídias exigem para elas.

Atitude de enfrentamento, no entanto, brota de aluna preta do curso de Pedagogia do DEDC. Cansada de seu ‘lugar de fala’ outorgado por  intelectuais desavisados, ela narra a seguinte história: uma pesquisadora  branca da USP, em auditório da UNEB que discutia ‘questões de gênero’, resolve tratar da entrada da mulher no mercado de trabalho, que, segundo ela, teve início a partir da Segunda Guerra Mundial. Com a convocação maciça dos homens para lutar nos fronts da Europa e do Pacífico, e com a vacância de ocupações ‘masculinas’, as mulheres começaram a ocupar esses espaços, como mecânicas de automóveis, operárias, motoristas dentre outras. A aluna interveio e desafiou a interlocutora da USP a dizer de que tipo de mulher ela estava falando, já que, no Brasil colonial, as escravas eram obrigadas a vender docinhos e quitutes pelas ruas, a se prostituir, a trabalhar como escravas de ganho, enfim. Ou seja, o mercado de trabalho para as escravas já se lhes era imposto há séculos. É esse o verdadeiro ‘lugar de fala’, o original, que tem como fonte alguém que levanta e desafia as velhas fórmulas e metodologias de gente cega, que insiste em confinar as vozes em espaços discursivos específicos, como se não fosse possível para qualquer um falar de qualquer lugar e de qualquer coisa. Todas as questões interessam a todo mundo.

Deus não dá asas a mambas negras – a mais venenosa das cobras africanas. Com uma daquelas barrigas negativas, e fazendo Comunicação na UFBA, eu faria questão de aparecer gargalhando e empunhando uma taça de champagne na cara desses malucos que pensam que uma menina preta somente sabe – e está autorizada a – falar sobre negritude, sofrer diante das câmeras. Somente aparecer com uma barriga negativa e uma taça de vinho, sem tocar em assunto de raça, isso por si só seria uma pequena vingança. O meu lugar de fala seria o universo sideral. Eu gritaria que sou mesmo é a luz das estrelas. 


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