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A PRAGA

A PRAGA

Braulino Pereira de Santana, professor-doutor titular da UNEB

 

“Quando a gente não pode com uma coisa, a gente esculhamba.”

 

Vemos um tipo de praga que se prolifera vindo de todos os lados, sejam eles de esquerda ou de direita. Insiste em nos assombrar desde o Brasil colonial, uma vez que, com dinheiro e no controle da força bruta, se impõe de forma impiedosa e sem limites, se multiplica, e enfrenta todo tipo de intempérie, como se fosse um tardígrado – o animal mais resistente do mundo. Trata-se de homem branco ocupando, de forma quase que vitalícia, posições de poder e de prestígio no Brasil.

Como se fosse uma tatuagem metálica na pele branca, é da própria natureza deles assumirem essas posições como se fossem deles por herança. Uma espécie de lugar de pertencimento algo universal e natural. Eles praticam o antilugar de fala, já que, ignorando que eles estão a um passo de representar seres humanos em posição de gênero e racial oposta a deles, não demonstram um mínimo pudor em insistir representar todo mundo como se isso fosse um desígnio desde tempos imemoriais. Há algo de judaico nisso tudo. Uma espécie de monoteísmo político racial branco.

A violência contra os não brancos continua sendo a forma clássica do modus operandi desse tipo de gente. A violência física ainda aterroriza camadas inteiras da população, mas eles reinventaram um tipo de violência mais sofisticado, uma vez que mais difícil de ser enfrentada: eles utilizam a semântica das desilusões, a sensação de derrota a conta gotas, o sentimento de impotência lento, que afasta as possibilidades de busca pelo poder de populações não brancas. Isso vem da reiterada construção dos estereótipos de sempre: o garoto negro bom de bola; a menina negra destinada a frequentar os espaços de coadjuvância na mídia; a reprodução dos papeis coloniais perpétuos de empregada, vendedora ambulante, o pedreiro, o peão da construção civil, o negão bem dotado. O jogo selvagem de um tipo de representação que beira à limpeza étnica.   

O anúncio recente de que Juca Ferreira deixa a Secretaria de Cultura de Belo Horizonte para ser candidato a prefeito de Salvador é mais uma página infame dessa história: o sinal mais evidente de que combater esse tipo de doença é uma tarefa quase impossível. E veja que a ambição desse tipo de gente não tem limites, uma vez que ele já ocupou a pasta do Ministério da Cultura em governo petista, ou seja, estamos diante de um vampiro que não cede um milímetro.

Salvador é uma cidade de gente preta. Há candidaturas de gente preta, sobretudo de mulheres negras, sendo construídas na capital da Bahia, mas esse tipo de gente, com nojo mal disfarçado de pobre e de negros, não é capaz de apoiar gente preta  – para esse tipo de vampiro, o lugar de mulher negra é reviver, fantasiada de baiana de acarajé, eternamente os estereótipos congelados no tempo: vender quitutes pelas ruas no trabalho informal; limpar banheiros de estabelecimentos comerciais, ou ainda lavando as suas cuecas.

Seres aberrantes, formas primitivas de vida – todos nós sabemos que não existe tempo ruim para esse tipo de homem, em governos de centro, de esquerda ou de direita. Em quaisquer que sejam as políticas adotadas, esse tipo de homem sempre se beneficia, ou sempre será o último tipo a ser afetado.

Lutamos contra as políticas do atual governo de milicianos porque sabemos muito bem quem está sendo de fato prejudicado em verticalidade e extensão. Pesquisas evidenciam que mulheres negras são aquelas que mais sofrem com o desemprego e com a falta de oportunidades (Pnad Contínua, Ipea, 2018). Até em desastres naturais esse tipo de vampiro, morando em bairros de rico, se prejudica pouco, pois as encostas e as favelas são os primeiros lugares a serem afetados.

Qual a diferença fundamental entre o tratamento dado por governos de milicianos a gente preta, a mulheres trans, a berdaches, a fanchonas, a índios, à ralé favelada e o tratamento que esses partidos de esquerda, monopolizados por esse tipo de vampiro, dispensa a essa gente genuinamente brasileira não branca? Há alguma diferença de mérito? Há muito mais em comum entre a gang de milicianos que usurpou o poder recentemente e esse tipo de vampiro de esquerda do que possamos imaginar.

A ideologia da miscigenação racial foi o golpe teórico mais bem arquitetado de que os acadêmicos brasileiros foram capazes, o mais poderoso de todos, pois o mais duradouro, muito mais resistente de que a força bruta usada contra populações não europeias no Brasil. Esse tipo de vampiro corre e se esconde nesse tipo de beco ideológico. Quando acuados como reais racistas que são, rapidamente alegam que tem um pé na cozinha; estampam os amigos negros que tem (todos no papel de coadjuvantes, que não ousem atrapalhar a permanência deles no poder). Se apoiam em inúmeras muletas teóricas: sequestram o discurso de igualdade e de luta de classe para si; saqueiam teorias de gênero dos outros;  fingem respeito à diversidade; fazem o diabo para se manter no poder – e como tem fama, dinheiro, cabelo liso e pele branca, amigos poderosos na mídia e famílias ricas que lhes deram lastro de estudo de línguas estrangeiras, e boa parte deles ainda sustenta sobrenomes estrangeirados também, sempre acabam conseguindo.

Esse tipo de vampiro não assimilou nada com a ascensão da direita explosiva ao poder no Brasil. Culpam igrejas evangélicas e a ação de pastores inescrupulosos, denunciam (de araque) a manipulação da mídia corporativa, abrem a boca para levantar as muito pertinentes interferências americanas, os inimigos externos, mas não se dão conta de que os verdadeiros inimigos, os mais difíceis de combater, pois cobertos por um manto semântico de inclusão pastiche muito bem arquitetado, são eles mesmos. Cadáveres ambulantes, é raro ver esse tipo de vampiro citar um nome sequer de uma preta para concorrer a o que quer que seja na política brasileira. Esses espaços já possuem os donos de sempre.

Quando em perigo, costumam encontrar asilo em embaixadas ou em Paris, como foi o caso da deslumbrada embusteira muito branca de pele que concorreu pelo PT à prefeitura do Rio de Janeiro, e hoje mora no conforto da França. Naquela famosa foto do exílio de Zé Dirceu alguém vê algum preto ali? Ou todos eles ainda estão, desde o regime militar até hoje nas cadeias brasileiras morrendo à míngua?

No clássico do cinema brasileiro, “O Bandido da Luz Vermelha”, dirigido no final dos anos sessenta por Rogério Sganzerla, em determinado momento, temos o bandido pronunciando uma icônica frase: “quando a gente não pode com uma coisa, a gente esculhamba”. Como não vejo saída para combater esse tipo de praga que domina a política brasileira há séculos, é melhor ter como ídolo um bandido desse naipe a votar naquele tipo de vampiro-bandido disfarçado de mocinho.


O que dizem

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  • 02.12.2019 - Zilma Felix
    Chico Anísio \\\"Vampiro Brasileiro\\\", contradizendo a impotência deste personagem, vem Bráulio mostrar a grande maldade do vampirismo.

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