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O CRIMINOSO PASSIVO ESCONDIDO NO DISCURSO DE BOLSONARO

O CRIMINOSO PASSIVO ESCONDIDO NO DISCURSO DE BOLSONARO

João Batista de Castro Júnior. Professor do Curso de Direito da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus Brumado. 

 

Como habitualmente digo, convém sempre prestar atenção aos avessos de qualquer costura discursiva, algo que, antes mesmo da Análise do Discurso, já integrava as preocupações das ciências sociais para com os disfarces ideológicos.

Sem pretender abarcar todas as partes submersas desse iceberg discursivo, até porque nele há uma clara estratégia de sobrevivência política, a fala do chefe da Nação, feita ontem à noite, é uma tarefa fácil para esse tipo de problematização epistemológica, mesmo com a tentativa de embotamento da indignação empreendida pelos seus jovens seguidores através das redes sociais. A propósito, é nessa específica juventude que está um ponto revelador: ela compõe um cálculo que não aparece, qual seja, o envelhecimento da população e a baixa taxa de natalidade que apavoram a economia, especialmente quanto ao sistema de seguridade e previdência.

O modelo econômico do liberal Paulo Guedes tem andado às voltas com a perda do bônus demográfico no Brasil – fenômeno em que ocorre proporcionalmente um número maior de pessoas em idade ativa prontas para trabalhar, e faz com que haja mais força de trabalho e menos pessoas inativas, terminando por aumentar a renda per capita –, o que está sendo agravado com a incapacidade do atual governo em aquecer a economia, como se viu pelo pífio PIB de 1,1% em 2019, e de aumentar a produtividade do trabalhador brasileiro, que está sendo empurrado para a informalidade.

Jair Bolsonaro, que nunca enganou ninguém nos seus discursos quanto ao desprezo glacial às históricas nevralgias sociais de um País que conviveu comodamente com a desgraça da escravidão por séculos, montou ontem – claro, se pondo mais uma vez a reboque do seu colega americano – um discurso que sinaliza para o proveito econômico com a morte de idosos, já que o novo Coronavírus surgiria como um achado benéfico para as planilhas. Para ser mais didático, é algo que se assemelha àquele tipo, embora raro, de médico ortopedista mercantilista que se delicia em encontrar uma cidade com grande número de motociclistas por já antever as cifras financeiras com as cirurgias.

Para o atual Governo, essa crise epidemiológica vai servir bem para se somar às progressivas intervenções restritivas no sistema previdenciário e de seguridade, que vão desde a redução das pensões por morte às dificuldades cada vez maiores de aposentação.  A morte da população idosa entra então num cálculo nefasto usado como curinga econômico, o que se aplica sobretudo ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), que é pago a idosos e pessoas com deficiência que não podem se manter por si mesmos nem têm o sustento garantido pela família. Como esse benefício não dá direito à pensão por morte, o desaparecimento de seus titulares ingressa positivamente na planilha contábil, especialmente porque, horas antes da fala de Bolsonaro, o Congresso Nacional tinha derrubado o veto presidencial (VET55/19) e ampliado o acesso ao BPC.

Com uma campanha que está sendo habilmente montada para questionar dados relativos a projeções epidemiológicas, o governo dos EUA, macaqueado pelo daqui, depois de já ter disseminado irresponsavelmente a imagem da China comunista como bode expiatório, agora desdenha a taxa de letalidade, o que, em realidade, esconde o lixo discursivo de que pouco importa se velhos inativos comecem a morrer.  

Em síntese: quando os dados das vítimas efetivas e potenciais do Covid-19 foram ficando mais nítidos, surgiu mais esse odioso estalo economicista que caiu como deus ex machina nas graças de alguns apoiadores oriundos da classe elitista ou de eternos aspirantes a ela, criados no toddynho do qual não querem saber quem ordenha a vaca, até porque, na quase totalidade dos casos, supõem presunçosamente poder blindar seus familiares, inclusive idosos, alocando-os em lugares seguros e isolados, enquanto assistem à dizimação demográfica entre os setores mais pobres da sociedade brasileira.

Essa é a função de um bom discurso ideológico na economia: compensar a perda sentimental com o prazer do ganho efetivo.  

Vitória da Conquista, Bahia, 25 de março de 2.020. 


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